A declaração do governo Trump de que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado” não é apenas uma frase de efeito. Ela representa a retomada explícita de uma lógica imperialista da política externa dos Estados Unidos. O próprio Departamento de Estado publicou um vídeo resgatando a Doutrina Monroe, criada em 1823 e historicamente utilizada, em diferentes momentos, para justificar a influência e intervenções dos EUA na América Latina.
E aí aparece uma das maiores contradições da extrema direita brasileira.
Passam o tempo todo falando em “Brasil soberano”, “defesa da pátria”, “Brasil acima de tudo”, mas quando Donald Trump diz que as Américas são uma espécie de quintal estratégico dos Estados Unidos, muitos batem continência e comemoram.
A inversão da lógica
Mas vamos imaginar a situação invertida: e se o governo brasileiro declarasse que a América do Sul é território de influência do Brasil e que nenhum país da região poderia questionar a nossa hegemonia? A mesma turma provavelmente estaria gritando “comunismo”, “ditadura”, “ameaça à soberania” e pedindo intervenção internacional.
O problema não é ser de direita, de esquerda ou gostar de Trump. O problema é abrir mão da própria soberania para defender a soberania de outro país.
Doutrina do século XIX no século XXI
A Doutrina Monroe pertence a outro século. Ressuscitá-la no século XXI significa aceitar que uma potência possa determinar quais países das Américas podem ou não tomar decisões independentes. E isso deveria preocupar qualquer brasileiro que realmente coloque “Brasil acima de tudo”.
A ironia é justamente essa: alguns patriotas brasileiros parecem tão apaixonados pelos Estados Unidos que, se Trump mandar o mapa, eles estão prontos para trocar a bandeira brasileira pela americana — desde que continuem podendo chamar os outros de “comunistas”.
O fato é que a mensagem de Washington, somada ao vídeo do Departamento de Estado, soa como um alerta para qualquer governo que tente alinhar interesses próprios sem consultar os EUA. Para países emergentes como o Brasil, isso pode significar pressões sobre acordos comerciais, parcerias estratégicas e até posições em fóruns internacionais.
“Patriotismo não é defender a hegemonia estrangeira. Patriotismo é defender a soberania do seu próprio país, inclusive quando quem ameaça essa soberania é o país que você admira.”
Reações no Brasil
A declaração de Trump não passou despercebida por analistas e políticos brasileiros. Para setores da esquerda, a fala confirmaria uma tentativa de reinstalar uma lógica de tutela sobre a América Latina. Para parte da direita, no entanto, a postura americana seria bem-vinda num contexto de crescente aproximação ideológica com o republicano.
O impasse, porém, é de fundo: não é possível defender ao mesmo tempo uma pátria soberana e a subordinação a outra nação, por mais simpatia pessoal que se tenha por seu líder. A tensão entre discurso e prática tende a se aprofundar à medida que a política externa do governo americano ganhe contornos mais explícitos nos próximos meses.
