Política

A toga, o cadeado e o evangelho da seletividade

Há coisas que só o Brasil consegue produzir: político que fala em Deus a cada três frases, ministro que chegou ao Supremo pelas mãos de um presidente, e uma Justiça que, dependendo de quem esteja no processo, parece ter janela panorâmica para uns e porta blindada para outros.

Por Neuton Pires 2 de setembro de 2026 5 min de leitura
Ministro André Mendonça
A imagem que circula nas redes questiona o tratamento desigual dado a investigações envolvendo Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

Há coisas que só o Brasil consegue produzir: político que fala em Deus a cada três frases, ministro que chegou ao Supremo pelas mãos de um presidente, e uma Justiça que, dependendo de quem esteja no processo, parece ter janela panorâmica para uns e porta blindada para outros.

André Mendonça — o famoso “terrivelmente evangélico” — parece ter descoberto uma curiosa interpretação do princípio da publicidade: quando o segredo interessa, abre-se a gaveta; quando incomoda os aliados, procura-se a chave, troca-se a fechadura e ainda se coloca uma placa: “não perturbe”.

O problema não é simplesmente levantar sigilos. Transparência pode ser necessária. O problema é a percepção de seletividade: por que determinados nomes e episódios ganham luz, enquanto outros permanecem mergulhados no breu?

E aí aparece Flávio Bolsonaro, o eterno personagem do folclore político brasileiro, cercado há anos pela história das “rachadinhas”, sempre orbitando entre explicações, investigações, suspeitas e decisões judiciais. Quando o assunto chega perto dele, parece que até o silêncio ganha foro privilegiado.

E Vorcaro? Bem, dependendo do capítulo, o sujeito pode estar no centro do furacão ou atrás de uma cortina jurídica tão espessa que nem o sol consegue atravessar.

“Se a Justiça é cega, por que às vezes parece enxergar tão bem de que lado está o suspeito?”

Não estou dizendo que André Mendonça seja parcial. Isso caberia às instituições, aos fatos e às decisões devidamente fundamentadas demonstrarem. Mas ministro do Supremo não pode apenas ser imparcial; precisa também parecer imparcial.

Porque quando a toga começa a produzir a impressão de que existe uma régua para adversários e outra para aliados, a sociedade deixa de enxergar um magistrado e começa a enxergar um operador político.

E isso é perigosíssimo.

A Suprema Corte e o risco de virar palco

A Suprema Corte deveria ser o lugar onde a política termina e o Direito começa. Não o contrário.

Se há informações relevantes sobre Alexandre de Moraes, que sejam investigadas. Se há fatos envolvendo Daniel Vorcaro, que sejam apurados. Se existem elementos envolvendo Flávio Bolsonaro, que sejam igualmente examinados.

A mesma luz para todos. O mesmo cadeado para ninguém.

Porque segredo de Justiça não pode virar cortina para proteger amigo, nem holofote para iluminar inimigo.

Fé e justiça não são a mesma coisa

E talvez a maior ironia seja justamente esta: um ministro que chegou ao Supremo embalado pelo discurso da moralidade cristã deveria saber que existe uma diferença enorme entre ter fé e fazer justiça.

Na Justiça, não basta escolher o lado certo.

É preciso demonstrar que não existe lado.

Caso contrário, a toga deixa de ser símbolo de independência e vira apenas uma fantasia muito cara para esconder velhas lealdades.

E aí o problema já não é mais saber quem está por trás do cadeado.

É descobrir quem recebeu a chave.

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