Há momentos na política em que a estratégia vale tanto quanto o discurso. E há noites em que um político consegue fazer algo ainda mais difícil: mudar o palco do jogo.
Foi o que aconteceu na noite de 1º de outubro.
Lula decidiu não participar do debate da Globo e, no mesmo horário, escolheu conversar com o público no Flow. A decisão foi cercada de controvérsias e críticas, mas produziu um fato inegável: quando o debate acabou cancelado, a entrevista de Lula passou a concentrar enorme atenção.
E aqui está a parte que merece reflexão.
Enquanto a televisão se preparava para colocar quatro candidatos diante das câmeras, Lula estava em outro palco, respondendo perguntas, falando de governo, de Brasil e de suas propostas. Não precisava dividir cada resposta com uma sequência de ataques, interrupções e provocações. Tinha tempo para desenvolver suas ideias.
O debate da Globo acabou cancelado depois que Lula já havia anunciado sua ausência e Flávio Bolsonaro desistiu horas antes. Decisões do TSE e do STF também alteraram as regras inicialmente previstas para o programa.
A política mudou de endereço
O que deveria ser uma grande noite de televisão transformou-se numa grande noite de internet.
Segundo levantamento da Veja, às 22h40 a entrevista de Lula no Flow alcançava cerca de 1,64 milhão de espectadores simultâneos no YouTube, contra aproximadamente 535 mil na transmissão de Flávio Bolsonaro. Somando o canal oficial de Lula, eram cerca de 1,79 milhão acompanhando as transmissões relacionadas à entrevista naquele momento.
Foi uma demonstração de que a política mudou de endereço.
Talvez seja justamente isso que explique a força de Lula como liderança política: ele entende que eleição não se ganha apenas dentro dos formatos tradicionais. Entende comunicação, momento, público e, principalmente, a capacidade de transformar uma adversidade em oportunidade.
Não é preciso concordar com Lula para reconhecer que existe ali uma extraordinária capacidade de sobrevivência política.
Poucos políticos brasileiros atravessaram tantas décadas, tantas crises, derrotas, vitórias, ataques e mudanças de cenário e continuam ocupando o centro da política nacional.
Lula pertence a uma geração política que aprendeu a disputar espaço nas ruas, nas fábricas, nos palanques, na televisão e, agora, nas plataformas digitais.
E talvez seja exatamente por isso que sua trajetória desperte tanto amor em uns e tanta rejeição em outros.
“Porque Lula não é apenas um candidato. Lula é um fenômeno político brasileiro.”
E fenômenos políticos não desaparecem simplesmente porque alguém decidiu atacá-los.
A presença construída pela ausência
Na noite passada, o palco mudou. O debate que deveria dominar a noite não aconteceu. O podcast que poderia ser apenas mais uma entrevista virou o principal acontecimento político da noite.
E Lula, sentado diante de microfones em vez de púlpitos, falou diretamente com milhões de brasileiros.
Foi uma jogada política que, independentemente da preferência de cada eleitor, merece ser estudada. Não necessariamente porque Lula “venceu um debate”. Mas porque conseguiu fazer uma coisa ainda mais interessante: transformou a ausência no debate em presença no imaginário político.
E essa talvez seja uma das maiores características de sua trajetória. Quando muitos esperam que ele entre no jogo pelo caminho tradicional, Lula frequentemente procura outro caminho.
Ontem, o caminho foi o Flow. E, pelo tamanho da audiência alcançada, ficou demonstrado que o eleitor brasileiro também está disposto a mudar de palco.
Parabéns, Lula. Mais uma vez, você mostrou que política também é saber escolher onde, quando e como falar com o povo.
